Acerca do diploma de jornalismo II

Por Derek Corrêa
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Entrevista com Fábio Fabrício Fabretti

Por Derek Corrêa
Dotado de um nome bem incomun - se assim o posso descrever - ou bastante comum, para poder lhe render um status de escritor. Fábio Fabrício Fabretti, ou FFF, para os íntimos, escritor nascido no paraná em 73, veio para o Rio de Janeiro, ainda novo, fugido e reside na capital desde 93. É escritor fora dezenas de outras funções que o classificam num meio, às vezes sombrio, às vezes acadêmico. Fábio me condeceu uma entrevista falando sobre seu novo livro e sobre sua visão de jornalismo, em específico: Gonzo.
Derek Corrêa – Fábio, depois de antologias publicadas com outros autores, e obras escritas em parcerias, você lançará um romance inédito. Pode falar sobre ele?
Fábio Fabrício Fabretti - Meu romance é sobre suicídio, mas o assunto central, por incrível que pareça, não é a morte, e sim a vida. Ainda não sei se será lançado na Flip — Feira Literária Internacional de Paraty — ou na Bienal, este ano. Foi uma proposta da Editora Giostri. Entre tantos trabalhos, escrever um romance sempre foi um objetivo, mas nunca consegui parar tudo e me dedicar. Só após assinar o contrato com a editora, que não tive escapatória. A trama germinava há tempos em mim. E os personagens me assombravam. Digamos que seja uma ficção com muitas referências pessoais. É sobre um escritor que realiza uma busca, confrontando-se com a morte a cada instante, em meio a crises existenciais. Um amigo o qualificou como uma comédia negra, onde, ao contrário do normal, começa pela morte e segue para vida. Um leitor viu a sinopse e ressaltou que é um livro de alguém que busca a si mesmo. Seja como for, tem questões patológicas com as quais todos nós nos confrontamos um dia. E minha intenção é trazer certa reflexão sobre o desejo de viver e morrer. A morte é um tema que muito me interessa, sempre presente em meus textos, e a estudo desde cedo. Quem nunca pensou em se matar? Quem nunca temeu morrer? Buscamos a morte em todo momento, e nem nos damos conta disso. Afinal, a morte é um assunto dos vivos!
DK – Você lançou seu primeiro livro para crianças, na Alemanha, e agora há um segundo infantil, novamente interligando Brasil e Europa?
FF - O editor Alex Giostri me convidou para construir um infantil, parte do seu projeto editorial vinculado à comemoração do Ano da França no Brasil. São dez livros lançados em versão bilíngue, franco-portuguesa, aqui, na França e na Bélgica, até o momento. Depois de O mistério dos livros, relançado este ano pela Editora Catedral das Letras, criei O mundo rosa de Amarelino. Inventei nas férias, na fazenda, quando encontrei uma pequena prima que vive distante e adora rosa, Sofia. Os olhinhos dela brilharam com a história. Quando lhe enviei a história escrita, tempos depois, soube que ela levou à escola e sua professora leu para os alunos. O livro é uma louvação à diferença e à amizade. Quando era adolescente, lembro-me que moramos num certo tempo na cidade interiorana de Pato Branco, no Paraná, e quando vi um único casal negro perambulando pela rua, levei um susto. Foi um choque descobrir o meu choque. Saber que pertencia a um elitizado e sulista grupo racista. Em Maringá, na minha infância, a maioria dos alunos da minha turma era composta por descendentes de japoneses. Ou seja, cresci em meio a esse multiculturalismo de pessoas. Em minha visita recente a uma tribo indígena, em Mato Grosso, percebi o quanto os índios estão miscigenados. Na Europa, vi a força da influência externa nos novos cidadãos europeus. E hoje, vivo no Rio de Janeiro, onde a etnia, como digo aos meus alunos, é um arco-íris. A raça brasileira é uma não-raça, pois temos todas as cores, formas e culturas num só povo. E quis contar isso na mágica estrutura de um livro infantil.
DK - Você é um autor ficcional adulto e infantil, que também faz biografias. Está escrevendo sobre a atriz Glória Pires?
FF - A biografia me atrai, porque é outra forma de contar história. Desde que trabalhei com o Ítalo Moriconi, na publicação póstuma das cartas do escritor Caio Fernando Abreu, esse universo me sugou e aflorou o meu lado jornalístico. Glória Pires é uma das atrizes de maior relevância na dramaturgia brasileira e mundial. E sua vida é um exemplo de determinação e conduta. Ela é uma mulher forte, heroína da vida real. O roteirista e escritor Eduardo Nassife mantinha esse projeto há quase dez anos, e me convidou a integrá-lo. É uma honra participar de Quarenta anos de Glória. Embora Eduardo já tenha um maravilhoso e impecável acervo sobre ela, nosso processo final tem transcorrido através de fabulosos encontros, quando Glória vem ao Brasil ou via internet. A previsão de lançamento é este ano também, na comemoração dos seus quarenta anos de carreira. Será importante para nós, brasileiros, homenagearmos a nossa Glória.
DK - Como escritor, o que o jornalismo chamado Gonzo trouxe de bom para o novo jornalismo?
FF - O jornalismo é o sensacionalismo da notícia, como o próprio nome diz. E gonzo simboliza aquilo que se desdobra. Um estilo criado por Hunter S. Thompson, que desfoca o tema da matéria e o autor intervêm como sujeito no texto. O autor vira o próprio personagem. É um desdobramento do jornalismo, que acaba sendo parte e/ou ajudando a construir o chamado Novo Jornalismo. O novo é inevitável em nosso mundo contemporâneo. Tudo o que é inovador tem dois lados: é interessante, curioso e atrativo, mas também julgado, ignorado e até desprezado. Ser vanguarda sofre, dizia uma amiga escritora, Virgínia Cavalcante. As pessoas se incomodam com o novo, porque quebra as regras. E nem todos querem ou estão preparados para isso. É exatamente como num programa de tevê, quando a diária novela ficcional tem o mesmo ibope dos realitys shows. Em meu novo romance, por exemplo, causa certo estranhamento a limítrofe distinção entre o real e o imaginário dos personagens. As pessoas são condicionadas a ler o mesmo a vida toda, a comprarem produtos, a consumirem, engessadas. As histórias com tempos psicológicos e não cronológicos — uma inovação de Machado de Assis — ou o rompimento da estética do começo, meio e fim — quebrada por Clarice Lispector — mostram bem isso.
DK - Como Hunter S. Thompson, quais outros jornalistas e escritores modernos e brasileiros escreveram de modo despojado?
FF - Hunter S. Thompson foi um jornalista junkie, bon vivant, um Bukowski ou Sérgio Sant'Anna na versão jornalística. Sobre outros escritores, quanto ao formato fora do lugar comum, ressalto os precursores da crônica e seus autores como João do Rio e Rubem Braga, estilo literário que surgiu do ninho jornalístico e se tornou um gênero à parte. Na crônica, o autor expõe um fato real e opina sobre, como fazem tão bem atualmente Martha Medeiros, João Ximenes Braga, Arthur Xexéu e outros. O próprio Arnaldo Jabor é um bem-humorado e inteligente cronista oral na mídia televisiva. Na literatura ficcional, Nelson Rodrigues foi/é meu orgulho principal. O cara aproveitou toda a dramática e sangrenta bagagem que colheu ao longo dos anos, notificando matérias em portas de delegacias suburbanas, e criou uma obra que, para mim, não deixa de ser biográfica, porém de uma forma diferente, no plano ficcional. Até a sua tragédia pessoal pode tê-lo ajudado inconscientemente nesse processo, acredito. Na tevê, nos deparamos com o novo despojamento jornalístico em que os apresentadores palpitam sobre as matérias, muitas vezes com ares de aprovação ou indignidade, mesmo que sutilmente, como o fazem Fátima Bernardes e William Bonner. E até nos leves bate-papos de outros apresentadores, sobre os temas expostos. A precursora desse movimento do jornalista se mostrar existente e pensante, muito além de um mero reprodutor robótico da notícia, começou com a clássica Lílian White Fibe. Sem esquecer os paparazzis — que em italiano significa perseguidores — que se enquadram na tola e vulgar máfia especulativa da ilustração, que era apenas complementar ao jornalismo e hoje virou um negocio à parte.
DK - Você acha que o jornalismo gonzo sobrepujou o jornalismo tradicional?
FF - Não sejamos exagerados ou injustos. O jornalismo tradicional ainda sobrevive, em menor escala, talvez. O gonzo não se tornou tão popular assim. Quem sabe ainda chegue lá. Mas é importante ele existir e continuar. Fórmulas existem para fazer remédios e receitas para assar tortas. Não vamos confundir a palavra tradicional — metódica, velhaca, fechada ao novo — com o clássico, original, o estado puro, com tendência ao desenvolvimento. Cada coisa ocupa o seu lugar. No entanto, é inegável que o novo é mais atraente e livre, e solta os grilhões do passado. Descoberta é isso, fazer o coração pulsar em outro ritmo. E a originalidade está nesse encontro.
DK - O que você acha sobre a mistura ficção/realidade em jornalismo?
FF - Explosiva. Necessária. Irremediável. Não posso deixar de citar a maestria literária de Truman Capote, que abusou das fronteiriças jornalísticas e literárias e trouxe a obra biográfica, hoje tão aclamada. E novamente Nelson Rodrigues, que partiu do jornalismo à literatura. Essa fusão orgasmática é verossímil para a arte, e ficcional para a verdade. Afinal, a realidade é o alicerce para toda construção artística, ponto de partida para a ficção e o despertar da criatividade, seja um fato, uma palavra, uma imagem ou uma pessoa... Autores de teledramaturgia também se pautam na realidade. Aguinaldo Silva fez uma das maiores novelas modernas baseando-se num fato real, em Senhora do Destino, como Gilberto Braga, que abordou a tendência das celebridades, e Glória Perez, trazendo as causas sociais, posteriormente imitadas por Manoel Carlos. A arte reproduz a verdade em sua inverdade. E há aquele exótico e vanguarda jornalista europeu — cujo nome não me lembro agora — de algumas décadas passadas, que mudou de sexo e registrou num livro a sua experiência transexual, continuando a atuar na mídia. Num texto literário, a presença do autor é imprescindível ao decorrer do discurso, direta ou indiretamente, mas no jornalismo ela é praticamente camuflada quanto à sua opinião, visto que o profissional do jornal tem um comprometimento com a verdade e sua narração deve soar impessoal. Já o escritor ficcional tem o livre arbítrio de criar mundos, pessoas, histórias, de materializar suas concepções através da trama e dos personagens, seja na narrativa direta ou indireta. Ele não se compromete com o real ou a verdade, embora parta dela.
DK - A forma como é escrita uma matéria ou um livro tem realmente influência em seu modo de ser lido?
FF - Sempre. A linguagem é o tijolo que levanta o texto. Embora o jornalista não possa opinar ou se expor em seus textos, ele tem o pleno poder — e a técnica — de fazê-lo, conduzindo o leitor a assimilá-lo. Ora, cada autor escreve conforme sua perspectiva, e isso é indubitavelmente absorvido por quem o lê. Porém o que é a verdade? A verdade é aquilo em que se acredita. Cada um possui a sua versão de um fato, baseando-se em seu ponto de vista. Como diz Leonardo Boff, "o ponto de vista é a vista de um ponto".
DK - Você acha que existe uma barreira grande entre o jornalismo e a literatura?
FF - Não diria que são barreiras, e sim diferenças. Universos paralelos. O texto jornalístico é rotulado como não-literário, no sentido acadêmico, pois contém elementos como a realidade, a brevidade, a informação e a linguagem formal. Já a literatura faz parte dos textos ditos literários, que trabalham com a imaginação, a eternidade da obra e a linguagem poética. Mas ambos são culturais e documentais, cada qual em seu departamento, e lidam com a arte da palavra. O instrumento do jornalista e do escritor é o mesmo: a palavra. Os meios é que são opostos. E, mesmo assim, em algum ponto, se confluem. Escrever é sempre escrever, usar a palavra como forma de expressar ideias e registrar histórias, sejam elas verídicas ou inventadas.
DK - O que, evidentemente, faz com que uma notícia ou um livro seja atraente ao leitor?
FF - Isso é relativo. Há quem se atraia somente pelos assuntos de seu interesse. Outros, podem se interessar por algum tema desconhecido justamente pela boa escrita. O que sei é que, quanto mais próxima da verdade e condizente com a técnica a notícia estiver, melhor. E quanto mais original e bem escrito um romance for, também. Uma boa notícia de jornal é como uma boa história romanceada, deve ser bem contada e saciar e acrescentar ao leitor. Nunca me esqueço de uma frase que a escritora Hilda Hilst me falou: "O escritor não deve ter medo da verdade". De dizer a sua verdade. Sem ela, ele não é de verdade. Penso agora numa brincadeira, em que o jornalismo é a seriedade da escrita divertida. A literatura ficcional é a diversão da escrita séria. E o gonzo são os guizos que tilintam em meio a essas artes!
Do site: Germina Literatura
Anima mundi começa hoje!

Por Derek Corrêa
Confira uma das animações do último festival:
Acerca do diploma de jornalismo

Por Derek Corrêa
Créditos:
Trabalho Sujo
Mário Amaya
Ana Freitas
Dica de Canal do You Tube
Por Derek CorrêaConto

Por Derek Corrêa
Eu me sentia perdido, e culpava a sua ausência em minha vida. Blasfemava a vida em teu nome; qual pecado mais odioso? Sentir-me sozinho era o sintoma de que não conseguiria viver sem ela. Naquela noite, em prantos desperdiçados em uma calçada da orla, eu deixei flores, bombons e uma última súplica em forma de palavras em frente a seu prédio.
Os dias passaram e nada de respostas. O que mais me magoava eram as palavras sem serem descobertas da carta. Era como se eu gritasse em um poço sem fundo: só ouviria meu eco, só, eu.
Pensava eu que paixão era algo superestimado, ninguém leva às últimas consequências como eu. Foi então, que subitamente em um momento corriqueiro de minha vida, enquanto passeava por uma avenida perdido, que me deparei com seu semblante iluminado, estava a pegar um táxi. Me lembro de nossa última conversa como se estivesse ao meu lado agora mesmo, a falar, a dizer, a suspirar:
- Se você – comecei eu a falar vagarosamente ao me aproximar do carro e pôr as mãos na porta, impedindo-a de ir-se -, que representa tanto para mim, se fores, não tenho mais por que permanecer como um corpo inerte no mundo. Quero sua mão sempre junto da minha e com isso ter tudo, pois eu sei que se estiver ao seu lado tudo é possível.
- Não sei se devo participar dessa sua loucura de amor. – ela enfim dizia-me, confusa em suas palavras vagas – A juventude ainda está no meu encalço. Admito, tivemos um lindo começo, mas esse livro deve chegar a seu fim, como todo romance tem seus últimos parágrafos.
- Se é realmente para se ter um fim, por que não um recomeço, uma continuação do que mal começou? O fim só existirá se der-se nele um ponto final.
- Pois então deixe que isso seja nosso ponto final.
Suas últimas palavras foram duras demais para mim. Como eu compreendi tal discurso nunca saberei, só sei que dali nós nunca mais nos vimos, se vimo-nos fora como meros desconhecidos, fato é que não sei afirmar se a vi depois daquilo. Com aquelas palavras ela simplesmente confirmou minhas conjeturas sobre amor utópico, platônico, para o diabo com os poetas! Filósofos e todos os crentes de uma civilização perfeita. São todos uns párias para mim. Que não sabem o que é a vida como ela é: sem significado algum. Então, no instante em que minhas lágrimas começavam a desfalecer de dentro de mim à imagem da salta que eu nunca poderia tocar, eu comecei a divagar seu futuro, algo do tipo seguir em frente, ser alguém no mundo, como qualquer outro, casar talvez, ter um trabalho; mas no momento qual era o futuro para mim? “Vou me recuperar e seguir em frente” seria um conselho arguto a ser dado do melhor amigo. Mas o que eu realmente eu pensava era que um sonho, um devaneio que fosse, nunca poderia ser concebido, o mundo não é feito de mares de rosas.
Mas eu sou poeta, e como bom poeta hei eu de levar tudo a seu extremo, até que minha vida seja ameaçada. Para um poeta viver sem amor é o mesmo que não ter ar para respirar.
A chuva retesava meu espírito ainda mais do que se podia. Meu coração estava crispado a ponto de enfartar a qualquer momento. Ela com sua cara dócil – como poderia detestá-la mesmo me desprezando? – tentava terminar tudo de forma a que ambos não sofressem, típico das mulheres digo eu. Agora ela passava a evitar-me, imagina! Alguém que já dividiu a cama comigo; a alma; já fomos um só ser no encontro de nossas línguas. Não aguentei, que Deus me castigue, ela me fitando de soslaio, esperando somente pela minha partida. Xinguei-a! Sim, xinguei-a. Vil!
- Deixe-me em paz! – ela gritou.
- Não posso, não consigo, deixe-me desabafar, suplico-te.
- Não, não quero mais nada com você, te odeio, não te amo mais, desprezo-te, desprezo-te!
- Não importa-me, eu não ligo nem se tu não estiver mais pensando em mim como ser, poderás saíres até com outros que não ligarei. Parece estúpido, eu sei, mas, sinceramente: eu te amo.
Naquele instante parecia que tinham congelado o tempo. Nós dois nos olhamos e congelamos, tudo ao nosso redor ficou negro ou qualquer que seja a cor, não importava, tudo tinha parado e não completava nada a não ser nós dois, no obscuro âmago da vida. Dois sussurros se olhando, porque não compreendiam o sentido da palavra amor. Ela deveria estar pensando o quão sério eu levava as coisas. Simplesmente eu deveria estar cansado de tudo e escolhi-a como pedestal para louvar a vida inteira. Provavelmente foi por isso que eu não tinha o que falar nem ela. Ficamos pensando no que havíamos dito. Eu, por outro lado, só estava interpretando meu ser no mundo, o poeta perdido de amor pela lida e formosa atriz de cinema que está menos para vida como para seus amores. Realmente; eu simplesmente não conseguia esquecer o fato de algo tão bom na vida tivesse começado e terminado tão cedo como fora, sequer sabia a razão para seu término.
- É só isso que tenho a lhe dizer. Mas esse “só”, para mim significa tudo em minha vida, a todas as coisas que a que tenho remorso a nosso respeito quanto à vida conjugal. Tem realmente que acabar todas as coisas lindas que Deus faz na terra, até mesmo as que suas crias fazem? Por que a linda borboleta só tem vinte quatro horas de vida nessa imensidão de terra que é o nosso planeta? Por que o amor nunca durará eternamente, o nosso, o de talvez todos os seres? Eu só queria dizer-te que hoje em dia eu simplesmente não consigo te esquecer.
E ainda estou a remoer essas palavras.
Acho que o impacto de minhas lágrimas dissonantes eram vívidas e intensas demais para a situação em que ela se encontrava. Queria ela, ou eu se estivesse em seu lugar, fugir, me esconder; aquelas palavras cansavam-na com certeza. Meu egoísmo, no instante refletido daquele momento, somente pensava que ela era ingênua demais para pensar na vida. Talvez estivesse certo, talvez eu quem estivesse errado desde o início.
- O que você quer dizer com isso? – ela perscrutava-me.
- Dê-me sua mão, deixe-me explicar – nos aproximamos e, acariciando sua mão crispada sobre a minha, esqueci de tudo o que éramos naquele instante, parecíamos um casal recém conhecido. Olhei nos olhos dela e continuei: - Isso, isso que nós estamos sentindo quando estamos conectados é paixão, isso é a melhor coisa que existe no mundo. Agora, o que isso se tornará quando levarmos para nossos corações esse sentimento se chamará amor. É simplesmente algo inexplicável e sublime ao mesmo tempo. Nesse sentimento, nesse estado de espírito, as pessoas se sentem fortes e são capazes de tudo – se estiverem realmente sobre efeito deste remédio. Isso poderia se comercializar, não acha?
Ela então riu-se como uma criança quando paparicada por seus pais. Foi um gesto simplesmente ingênuo e belo. Este sorriso de felicidade recíproca era sinal de que entendia o que eu lhe dizia. Então eu continuei:
- Não é por que um dia as coisas foram ruins que não possam melhorar como uma vez foi. Eu não acredito nisso, esse sentimento que acabei de lhe descrever renova a alma das pessoas, acho que ninguém consegue ser uma ilha a vida inteira, não dá para fecharmos nossos corações e não deixar mais ninguém entrar depois de algum tempo, não dá. Pode parecer bobo, e é, mas por incrível que pareça você tem algo meu que talvez eu nem quisesse te dar, mas você me deu algo e com isso te dei isso que só eu podia dar de mim. Você, em troca, somente me deu minha felicidade.
- O que tu me deste?
- Meu coração. Eu juro que tentei levar a vida depois de terminarmos, mas mesmo que não tenhamos o mesmo sentimento que tivemos um dia eu ainda quero ter esta felicidade que só consigo ter quando estou ao seu lado.
- Acho que me sinto nua ao seu lado, e ao menos nos conhecemos.
- Não suma. Eu me odiarei, sim, a mim, por ter perdido você de minha vida.
- Para você amar não existe, parece que para você tudo é um extremo absurdo, que amar se acontecer é lindo. Mas a vida existe, e nós existimos, o amor existe e você, dentre bilhões, veio à vida. A vida segue, é como andar para o horizonte: siga também. Mas nunca, nunca descreia de que se tornará inútil viver, ainda mais por outro ser.
Olhei nos fundos de seus olhos e beijei sua fronte. Ela beijou-me nas lábios graciosamente, com somente seus lábios carnudos encostando nos meus. Enquanto isso as mãos se desfaziam sutilmente; iam se desgarrando como se estivessem presas uma a outra.
- Te tornei minha rainha por engano! – gritei para ela ouvir, mas já era tarde demais, ela já havia partido. Porém, concluindo meus pensamentos disse o que hoje não entendo com precisão o que quis dizer no momento. Ah, no momento eu estava divinamente inspirado: “Azul... és uma cor tão linda quanto o vermelho: o amor. Talvez devêssemos ter o amor azul e não vermelho. Seja azul, amor.”
Crônica: A semana em que não se teve notícias
Por Derek CorrêaSegunda-feira havia amanhecido diferente para aquele condado. Os pássaros ousavam cantar brandamente, gesticulavam demasiadamente. As pessoas acordavam ouvindo à sinfonia, logo todas se espreguiçavam juntas, louvando o dia, saudando o sol.
Começou bonito e foi melhorando. Tudo era mais tranquilo de se fazer, não havia o que se temer. As pessoas foram trabalhar felizes da vida. A vida era bela.
Estudava-se mais, amava-se mais, contemplava-se a vida. Não houve notícias ruins nas rádios locais. Todos sorriam.
As crianças brincavam alegres nas portas de casas sem seus pais se preocuparem. As pessoas sorriam e riam livremente.
Ninguém quis beber, se drogar, nem sequer fumar. Todos eram saudáveis e sorriam a isso. Todas as cores do mundo tinham contrastes fortes. Tudo estava mais vívido.
Os bebês não choravam. Ninguém chorava, pois não havia motivos para chorar naquele dia lindo.
Naquela noite choveu.
As ruas estavam cheias, todos cantavam e cumprimentavam-se. Todos se saudavam.
Foi assim até o final da semana. Tudo simples e modesto, sem falsidade. Tudo esbelto e perfeito, como a vida deveria ser predestinada a ser.
Todo dia trabalho normal, todo dia olhar para a esposa amada. Todo santo dia ver tudo belo.
Chegara ao ponto de não haver mais jornais e as rádios não falarem de mais nada, assunto sequer não necessitava-se comentar, não havia problemas a serem reclamados. Só tinha propagandas, e todos as ouviam. Viam suas tevês; as novelas sobre a vida perfeita.
Mal? Pra que mal?
Sábado de manhã um garoto chegava perto da vitrine de uma loja de conveniência. O mercador sorria elegantemente para ele, saudando-o. Ele retribuía o mesmo. Tirava da calça uma garrafa de vidro com um pano no bocal e tacava-lhe fogo.
Atirou contra o vidro da loja. Todos começaram a gritar horrorizados.
- Nós precisamos disso – ele dizia.
- Nós precisamos disso.
Quem é esse "Grande Irmão"?
por Derek Corrêa
Frase do romance 1984, de George Orwell: “O Grande Irmão está a observar-te”
Há dez anos na televisão, nove só no Brasil. O Big Brother (Grande Irmão, do original), criação do executivo John De Mol baseado na figura totalitária do célebre romance de George Orwell, 1984; reality show que tem por definição tirar a privacidade dos concorrentes está cada dia mais próximo de uma realidade. Uma realidade prevista no próprio romance de Orwell.
O livro, escrito em 1948, retrata um estado totalitário e onipresente na vida de uma sociedade. George Orwell o escreveu em seus últimos anos de vida com medo do que a revolução socialista pudesse acarretar. Tinha como sugestão de título “O último homem da Europa” antes de virar 1984 – o inverso dos últimos dois dígitos do ano em que foi escrito. No fim, sua previsão não foi completamente realizada, contudo, atualmente seu livro não deixa de ser um alerta.
Hoje em dia conhece-se Big Brother como um programa de entretenimento em que milhares de cidadãos mandam por edição seus filmes mais inusitados para participarem da casa vigiada, não só por Pedro Bial, mas por todos os telespectadores que, aliás, podem desfrutar de uma vigilância de 24 horas por dia se adquirirem o pay-per-view do mesmo.
Cultura da perda da privacidade
Todavia, cada vez mais se está, não só no Brasil, se criando uma cultura de perda de privacidade, onde o indivíduo sequer pode sair de casa sem que outros o possam achá-lo. Caso é a recente invenção da empresa Google: o Google Street View que, a princípio, tem a funcionalidade de poder ver as ruas de qualquer lugar desejado, porém, já vem sendo acusado de quebra de privacidade e sendo argumento até para processos judiciais.
Outros sites como: Myspace, Facebook e Orkut (O último sendo mais popular no Brasil e Índia), têm como características principais a criação de uma identidade virtual da pessoa que se cadastra e não são raros causas de ciúmes entre cônjuges e inícios de relações virtuais – que acabam por comprometer cidadãos com o desvirtuamento da própria realidade, não conseguindo, assim, se relacionar fora daquele ambiente. Sem mencionar diversos outros modos virtuais de comunicação.
A questão é: Por que gostamos tanto de nos desinibir, de perder a privacidade? O próprio George Orwell afirmou uma vez em entrevista a seguinte citação: "Por que essas trivialidades monstruosas são tão absorventes? Apenas porque toda a atmosfera é profundamente familiar, porque o tempo todo temos a sensação de que essas coisas acontecem 'conosco'". Contudo, essa fixação de observar e ser observado pode levar a um fim extremamente paranoico.
Privacidade: Ficção x Realidade
O Departamento de Defesa dos E.U.A esboçou no final do ano passado um programa intitulado Conhecimento Total de Informações, com o objetivo de permitir ao governo rastrear os movimentos dos 290 milhões de cidadãos norte-americanos, com o objetivo de prevenir ataques terroristas. Seria, então, um início de uma criação de um Big Brother?
No romance, George Orwell descrevia que no futuro todos pertenceriam a uma ideologia totalitária, quase que irracionalmente – exceto por Winston Smith, protagonista, que morre devido sua discordância da sociedade – das previsões que o autor se relacionava, muitas já foram desbancadas, mas na questão da privacidade poderíamos até dizer que já fomos além das ideias dele.

Charge comparando o internauta moderno com o “olho que tudo vê” do Big Brother
Outro autor, que assim como George Orwell previa um futuro distópico – ou seja, um futuro imperfeito –, Aldous Huxley, achava que a tecnologia e a química seriam a forma de manipulação do Estado sobre os indivíduos, fazendo até mesmo que gostassem de ser alienados. E o que falar das drogas e da mídia nessas horas?
Outro fato interessante que se constata é que numa entrevista com dez pessoas aleatórias referindo-se sobre conhecimento do romance, do autor do romance e da origem do programa Big Brother, somente um afirmou conhecimento. Parece que o que importa mesmo é o entretenimento nessas horas.
A cada dia que se passa há uma diminuição do ato de se envolver entre as pessoas ou até mesmo uma evolução, em certas características, no ser social. Como pode-se observar ao ver que o reality show Big Brother, que está em sua nona edição, continua a despertar os mesmos interesses do público e que há uma crescente criação de novelas onde o público pode, como disse George Orwell “...Ter a sensação de que essas coisas acontecem ‘conosco’”.
Raro é, nos dias modernos, não ser achado facilmente. Isso é uma das coisas que a tecnologia trouxe a nosso favor. Mas até quando perder essa privacidade é favorável? O maior dano dessa nova forma de privacidade – se assim a pudermos conceber – é que os papeis se inverterão e, até certo momento, as coisas ficaram previsíveis. Saber que uma candidata do Big Brother será a próxima capa de uma revista masculina não é nem mais novidade, a tal ponto de, ao iniciar o reality show, já fazem-se apostas para ver quem vai estrelar a primeira capa. Também como Fuxicar a vida alheia e saber seus ínfimos detalhes através de sites na internet.
Tudo isso acaba por fazer o indivíduo parar de pensar na sua própria vida e se projetar na vida dos outros. O que nos restará, se assim se progredir tal evolução, será conceber que George Orwell estava, sim, certo e que no futuro – se é que já não estamos nesse futuro – todos serão de todos, e todos serão do Estado. ▪
Os álbuns na cultura contemporânea
Quem vive sem música? Através da internet - que Deus a abençoe -ficou muito mais fácil responder essa pergunta. Sem gastar nenhum centavo pode-se baixar uma infinidade delas. Muitos cantores começam divulgando seu trabalho por aqui, até chegar ao grande público. É um marketing que dá certo.
As grandes gravadoras tem aversão à popularidade do MP3, mas não há mais razão para se tapar o sol com a peneira. O mercado não é mais o mesmo, mas as portas não se fecharam. Os produtos tornam-se cada vez mais obsoletos, vide a transição do disco de vinil para fita cassete, e desta para o CD. Isso é uma exigência do próprio mercado capitalista, ligado a natural evolução da tecnologia.
Até o presidente Lula baixa música pela internet, como ele mesmo afirmou a vários portais eletrônicos. Pois bem, apesar de toda facilidade do mundo virtual, a venda de CDs não acabou. Ter o álbum em mãos é um custo que muitos fãs não renegam. Poder apreciar a capa do álbum, o encarte. Tem a ver com afetividade, o carinho do consumidor para com o artista.
Muitos álbuns se sobressaem de cara pela sua capa. Algumas são verdadeiras obras de arte por tamanha beleza e criatividade. Outras se utilizam do sex appeal, de forma artística, sem agredir o consumidor. Diversas são as capas lembradas em listas de veículos sobre o assunto, como a feita em 2007 pelo site americano Gigwise. A lista foi elaborada pela equipe editorial do site, que considerou a popularidade das capas, o contexto e o significado. Segue, abaixo, as 10 melhores capas da música entre as 50 listadas pelo Gigwise:
02. Very Eavy, Uriah Heep (1970)
03. Never Mind the Bollocks, The Sex Pistols (1977)
04. London Calling, The Clash (1999)
05. Is This It, The Strokes (2001)
06. Licence to Ill, Beastie Boys (1986)
07. Abbey Road, The Beatles (1969)
08. Country Life, Roxy Music (1974)
09. Houses of the Holy, Led Zeppelin (1973)
10. The Velvet Underground & Nico, The Velvet Underground (1967)
Um fato interessante: Pintores conhecidos também se dedicaram a ilustrar capas de discos. A capa da décima posição da lista mencionada, da banda The Velvet Underground, feita pelo pintor e cineasta norte-americano Andy Warhol é um exemplo. Salvador Dali também faz parte do rol. Ilustrou, dentre outros, o álbum Newbor, de James Gang (1975):

No Brasil, artistas famosos também deixaram sua marca. Na década de 50 uma série deles trabalhou na ilustração de capas. Seguem dois álbuns a seguir, respectivamente de Lan e Di Cavalcante:

A Velha Guarda (1954), por Lan, à esquerda e Poesias de Cecília Meireles e Guilherme de Almeida (Sem data), por Di Cavalcante, à direita.
Curiosidade:
No Japão, uma empresa de alimentos está comercializando pratos reproduzindo capas de discos ocidentais. Funciona da seguinte forma: os alimentos são dispostos numa caixa com o topo transparente, de uma forma que suas cores reproduzam fielmente capas de discos como o álbum do One Day As A Lion (foto abaixo).


Para a indústria musical um disco duplo vale por dois simples, por isso, com Greatest Hits Vol. 1 e 2 do Billy, com 21 milhões de cópias vendidas, é o nosso 10º lugar!

Não foi à toa que o Led Zeppelin batizou seus 4 primeiros discos de Zeppelim de Chumbo, o quarto voou tão alto vendendo 22 milhões de cópias que se tornou 9º disco mais vendido de todos os tempos!

O Fleetwood Mac foi fazer um disco e fez um verdadeiro tratado de separação e perda porque os dois casais de compositores da banda estavam se separando enquanto compunham Rumors. Resultado, 26 milhões vendidas e a nossa 8ª posição.

Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, revolucionou o processo de gravação de discos no planeta. E vendeu 32 milhões de cópias, fazendo dele o 7º disco mais vendido do mundo!

Shania Twain provou que tempo na prateleira só é vantagem pra poeira! Porque de 97 pra cá, o seu Come On Over já vendeu 35 milhões de cópias! 6º lugar.

A crítica classificou o som do Pink Floyd de rock espacial, ninguém mandou, eles levaram a sério e fizeram The Dark Side Of The Moon o 5º disco mais vendido de todos os tempos com 36 milhões de cópias!

Meat Loaf fez a ópera rock mais melodramática apelativa e cheia de clichês do rock. E o pior é que Bat Out Of Hell vendeu 37 milhões de cópias, 4ª posição pra ele.

Their Greatest Hits, a coletânea do Eagles de 1975, é o disco mais vendido dos EUA, mas no mundo ele ficam com a medalha de bronze e tá bom demais!

Até o AC/DC vender 42 milhões de cópias do seu Back In Black só tinha norte-americano e inglês nessa lista, mas os irmãos Young são Australianos e ficaram com e medalha de prata!

Michael lançou um disco com 9 músicas e 7 delas chegaram ao 1º lugar, 7! Com 54 milhões de discos vendidos, é de Thriller o primeiro lugar.














